Cancelados

 






CANCELADOS


Jacarezinho/Rio 

        ou qualquer lugar do Brasil - 06/05/2021


 

Um, depois de vários tiros

dois pra não parar de contar os tiros

 

cancelado o convívio

cancelada a vida

homicidiado pelas estruturas estatais desgovernadas

ou governadas

para o mal

três cancelados

 

podadas as possibilidades de continuação da labuta sem perspectivas

cortadas as vidas já abatidas no desânimo usual!!!!

- O ESTADO É ASSASSINO

 

Cancelada a compra do pão do café do final de tarde

Cancelados os desejos de melhorar uma vida que não passa de vegetativa

 

CANCELADOS CANCELADOS CANCELADOS

 

Quatro pra não se tornar uma conta muito simples de um a três

Cinco seres vistos como abjetos pela polícia que policia o patrimônio da elite assassina

O PATRIMÔNIO

 

Cancele-se a solidariedade

Cancele-se a lei

Cancele-se a mínima sobriedade e empatia com o mínimo do humano

 

Seis vidas canceladas

Detratadas na vil visão dos assassinos do estado famigerado.

O sangue escorre as calçadas da comunidade da favela que não vive

Sangue escorre nos bairros pobres dos pretos pobres e pobres brancos ou de qualquer cor

O endereço é certo para o cancelamento premeditado do estado assassino

 

O ESTADO POLICIAL ASSASSINA

 

Sete cancelados

Não podem mais ouvir a voz da mãe cansada de tanto penar

                                                                                   de tanto sofrer

                                                                                   de tanto se angustiar

o filho sai pra buscar o trampo mas não volta?

Eu saio pra comprar a migalha do pão

mas não posso voltar

 

Oito balas perdidas no coro curtido dos pretos pobres dos bairros pretos e pobres

Dos bairros de qualquer cor mas com endereço certo do cancelado pobre menosprezado

PELO ESTADO ASSASSINO

 

Nove cancelados

Todos amordaçados em suas impossibilidades de defesa das suas vidas tão estropiadas no amassado dia a dia do sofrimento descabido das idas e vindas dos morros desbastados pelas corredeiras de lixos

 

Dez lixos humanos apagados e jogados nos entulhos

Das corredeiras da água barrenta

 

A água barrenta que se mistura com o sangue dos lixos humanos pretos pobres ou pobres brancos de qualquer cor das comunidades sofridas

 

Onze contas de alvos preparados para a morte

Condenados sob qualquer critério

 

O critério é instintivo

é o do momento de insanidade da polícia do estado assassino

 

Critério da forte e violenta emoção

do estado desproporcional na legítima defesa do homicídio premeditado

 

Doze vidas atormentadas pela violência diária das milícias fardadas

Canceladas

 

Simplesmente podados das famílias que sofrem

 

Catorze pessoas

Tantas pessoas invadidas em suas vidas de caos

Tantas casas invadidas arrombadas afrontada a lei

Mas a lei?

Vidas invadidas em seu lar já tão desgastado

Vidas abatidas ali mesmo, diante dos meninos postos no sofá mofado

Ou no chão frio nem tão frio jogando gudes encontradas nos detritos levados pela correnteza da chuva torrencial de outro dia

 

Cancelados ali mesmo, sem dó nem piedade

Postos no banquinho da saleta de entrada do barraco, alvejados porque tem de ser assim

Sem sentido nem explicação

Pela sordidez do estado assassino, tudo bandido mesmo...

 

Quinze seres humanos afrontados em sua mínima dignidade

Mas e a lei?

qual é a lei?

 

Dezesseis indigentes

Dezessete condenados pela cor e endereço

Dezoito almas apenadas com a morte

Dezenove malditos pobres favelados

Vinte miseráveis arrancados da vida

Vinte e um condenados de passagem

Vinte e dois cancelados

Vinte e três abatidos

Vinte e quatro pra conta do fuzil assombrador

Vinte e cinco pra conta do Estado assassino

Vinte e seis assassinados a sague frio

Vinte e sete abatidos sem violenta emoção

Vinte e oito cancelados sem qualquer emoção

Vinte nove...trinta...trinta e um...

 

Todos os pobres pretos e pobres de qualquer cor

Todos condenados

Na sordidez do Estado tomado pela milícia

 

Todas as vidas canceladas pelo Estado da milícia governante.

 

 

Argilandes Guedes

Salvador/BA, 08/05/2021

(06/05/2021 – Chacina na comunidade de Jacarezinho/RJ)

 

 

 

 

 

 

 

 


Torrão


terra seca
terra seca
terra seca

terra assentada no escaldar do sol

solo sofrido
como o povo
que se vê ao longe

como aquela arvorezinha ali distante
que teima em não se desfalecer

terra seca
terra sem água
em trégua pela esperança
que há

povo da luta renhida
contra os males

povo que luta
que a terra ainda dá

Imaginar imagem



Imaginar a aspereza das coisas que desanimam

imaginar que essa aspereza sucumbe
ao nascer da natureza

A natureza faz reviver a beleza
que a vida faz demonstrar na mais singela imagem



Viver

A terapia da vida é ter a mente em sintonia contínua com a esperança de dias melhores.
O inusitado ocorre porque se vive.
É assim. Não há outro jeito.

Pensar positivo

Chave da vida...

Normalidades

Vivem-se estes tempos anormais

Ou são tempos mais que normais
para alguns indivíduos

diferentes
ou anormais

Tempo da destemperança nutrida
na sordidez da individualidade descabida

na desmedida estupidez

Tempos descabidos na intolerância

Tempo o nosso
cortado das nossas mentes invadidas
pelos gestos sem sentido

sem o liame contido na ponderação
ainda que tênue

Tempos difíceis
encaminhamento doloroso
na conformidade dos infortúnios de tanta estupidez revelada nas comunidades
.....tão inteligentes e tão sabidas e tão conhecedoras de tudo e de todos

Tempos impossíveis estes
de conhecimentos e sabedorias tão distantes do sentido
da
vida
solidária
e
de
paz




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